Enquanto passava pela calçada, viu o portão da garagem se abrir. Esperou pacientemente o carro sair e seguir seu rumo despreocupado, no momento em que o portão automático fez menção de se fechar, ele caminhou discretamente até lá e se esgueirou garagem adentro. Ninguém percebeu, principalmente o porteiro que se distraía com um programa na TV. Para colaborar, não haviam câmeras (a instalação seria na semana seguinte), algo que ele já tinha previsto só de passar os olhos rapidamente pela entrada do prédio.
Dentro da garagem abafada, sem demonstrar nervosismo ou qualquer coisa que o denunciasse, se dirigiu aos elevadores. A porta se abriu, um casal de idosos saiu, cumprimentou-os e entrou. Quando ia apertar o botão, o elevador foi chamado, em vez de escolher, deixou-se ser escolhido. Assim, foi parar no 5º andar, onde uma menina de uns 13 anos aguardava com um cachorro pequeno no colo. Elogiou o pelo do cachorro e recebeu de volta o sorriso tímido da menina. Ela se foi e ele seguiu, olhava os números dos apartamentos um a um. Chegando ao 501 apertou a campainha, porém não esperou nem a resposta e saiu, foi ao 503 e fez o mesmo, no 505 apertou forte duas vezes. Acelerou passo pra chegar ao 508, atrás dele aquela sinfonia de trincos se deslocando, molhos de chaves balançando, portas se abrindo. Desistiu do 508 e seguiu em diante pelas escadas, para ir mais rápido , subia a cada 2 degraus. Já no 6º andar, uma moradora que estava de saída, fechando a porta, olhou-o com um ar de estranheza, e antes que ela falasse algo, ele se adiantou:
- Bom dia. A senhora, por acaso, viu alguém passar por aqui?
- Não, não vi, até porque só saí agora - respondeu a mulher desconfiada.
- Tudo bem, estou a procura de um suspeito que pode ter entrado nesse prédio - falou ele ao mesmo tempo em que mostrava a carteira com um distintivo, num gesto tão rápido que não dava para identificar nada.
- Ai meu Deus, será que é assaltante, moço? - perguntou a mulher assustada.
- Acho melhor que, para sua segurança, a senhora saia depois. Entre em casa e tranque a porta - sugeriu ele, que olhava para todos os lados, como se esperasse que o suposto invasor surgisse.
- Ah então tá, vou entrar agora mesmo! Obrigada hein, tomara que você consiga prender logo esse marginal - disse a mulher, completando a frase já dentro do apartamento e em seguida fechando a porta com todas as voltas possíveis da chave.
Depois do breve diálogo, ele chegou ao elevador, que já estava no mesmo anda o esperando. Dessa vez foi direto a portaria, cumprimentou o porteiro e saiu.
Chegando ao trabalho, um escritório no centro da cidade, reclamou do calor com a secretária e perguntou qual era agenda do dia.
Segunda-feira, mais um dia normal começava.
O Expurgatório
terça-feira, 5 de junho de 2012
terça-feira, 29 de maio de 2012
O Cobrador
- Abre lá atrás pra ele subir com o carrinho, piloto!
Acordo às 04:00 todos os dias em que estou escalado pra trabalhar, ou seja, no máximo um dia de folga durante a semana. Moro longe da garagem, aliás, moro longe de muita coisa.
Tenho trabalhado muito, to juntando pra comprar um carrinho, vai facilitar demais as coisas. Principalmente pra visitar meu filho, que mora com minha ex-mulher, no lugar mais contramão que já vi. Não sei pra que aquela mulher foi se esconder tanto, deve ser pra dificultar minha vida. Só pode, aquela miserável. Maldita hora em que fui naquele forró no Arará. Me lembro de ter falado pro Edmilson: "Não vou não, to sem dinheiro.", mas ele disse que pagava, que tava com dinheiro por ter acabado um serviço num apartamento lá no Humaitá.
Ah se arrependimento matasse! Tava durinho agora debaixo da terra. Não posso nem falar isso, o moleque não tem culpa das minhas burradas, além do mais, é bom de bola, tá certo que tem que melhorar um pouco na escola. Não se dá bem com Língua Portuguesa, igual ao pai, nunca gostei desse negócio de análise não-sei-o-que-lá, verbo, sujeito. Oh troço chato que embola a cabeça da gente! Mas já falei pra ele, se não tirar notas boas, tchau pro futebol.
- Anacléia, você não pegou os R$ 5,50 com a Rúbia, Anacléia?
- Peguei, mas num to achando aqui. Ai meu Deus, cade o dinheiro, não tá no seu bolso Cleiton? No da calça?
- Não tá, já disse! Porra, Anacléia! Não é possível, você não presta atenção nas coisas não? Você não pegou o dinheiro? Meteu onde?
- Não sei, você não deu lá na hora que passou pela roleta não?
Essa viagem é a "boa". Quer dizer que é a última para largar do serviço, me livrar dessa cadeira, desse trajeto, mesmos buracos, mesmo sinais, dessas contas repetidas: 1 = R$2,75; 2 = R$ 5,50; 3 = R$ 8,25..., de pedir pra esperar o troco, de dizer onde dobrar, onde atravessar, onde tem a pracinha, de me livrar disso tudo, só quero dormir, ainda mais que dobrei hoje. E agora, esse casal me aparece.
- Amigão, vocês passaram mas não pagaram.
- Aí Anacléia!
- Paguei sim, pode ver aí! Não quero nem saber, paguei sim!
- Não pagou não, como você pagou? Foi você ou ele quem pagou?
- Foi ele.
- Você pagou, amigo?
- Não paguei não. Anacléia, não paguei, não disse que não paguei? Tá ficando doida? Olha só, fica fazendo vergonha na frente de todo mundo aqui no ônibus! Liga ai pra Rúbia!
- Meu celular não ta pegando, tá dando fora de área direto.
- Qual é o celular dela? É o Tim ou o Claro?
- É o Tim.
- Trocador, pode deixar que no ponto final nós resolve, não vai ninguém aqui descer sem pagar não. Não tem criança aqui não.
Ainda tenho que escutar isso, o cara passa com a mulher pela roleta, pede pra abrir atrás pra outro garoto subir, não paga e bota essa banca. Eu é que não vou ficar discutindo com gente enrolada. Digo enrolada sendo bem bonzinho, porque a outra já ia forçando a barra dizendo que tinha pago. Eu hein, é ruim de ficar discutindo hein. Quem não quer saber sou eu. Quando chegar lá no ponto final o fiscal que resolva. Sempre paguei tudo direitinho. Claro, não sem dificuldade, mas ninguém tem nada a ver com isso, né?
Ainda bem que já tamos chegando na garagen, quando chegar em casa vou esquentar aquele picadinho de ontem, to cheio de fome mesmo. Ainda vou ver se a Néia não quer dar uma passadinha lá. Se não quiser também, tá bom, to cansadão.
E amanhã, bem cedinho, começa tudo de novo e a gente tem que tá preparado, né?
Acordo às 04:00 todos os dias em que estou escalado pra trabalhar, ou seja, no máximo um dia de folga durante a semana. Moro longe da garagem, aliás, moro longe de muita coisa.
Tenho trabalhado muito, to juntando pra comprar um carrinho, vai facilitar demais as coisas. Principalmente pra visitar meu filho, que mora com minha ex-mulher, no lugar mais contramão que já vi. Não sei pra que aquela mulher foi se esconder tanto, deve ser pra dificultar minha vida. Só pode, aquela miserável. Maldita hora em que fui naquele forró no Arará. Me lembro de ter falado pro Edmilson: "Não vou não, to sem dinheiro.", mas ele disse que pagava, que tava com dinheiro por ter acabado um serviço num apartamento lá no Humaitá.
Ah se arrependimento matasse! Tava durinho agora debaixo da terra. Não posso nem falar isso, o moleque não tem culpa das minhas burradas, além do mais, é bom de bola, tá certo que tem que melhorar um pouco na escola. Não se dá bem com Língua Portuguesa, igual ao pai, nunca gostei desse negócio de análise não-sei-o-que-lá, verbo, sujeito. Oh troço chato que embola a cabeça da gente! Mas já falei pra ele, se não tirar notas boas, tchau pro futebol.
- Anacléia, você não pegou os R$ 5,50 com a Rúbia, Anacléia?
- Peguei, mas num to achando aqui. Ai meu Deus, cade o dinheiro, não tá no seu bolso Cleiton? No da calça?
- Não tá, já disse! Porra, Anacléia! Não é possível, você não presta atenção nas coisas não? Você não pegou o dinheiro? Meteu onde?
- Não sei, você não deu lá na hora que passou pela roleta não?
Essa viagem é a "boa". Quer dizer que é a última para largar do serviço, me livrar dessa cadeira, desse trajeto, mesmos buracos, mesmo sinais, dessas contas repetidas: 1 = R$2,75; 2 = R$ 5,50; 3 = R$ 8,25..., de pedir pra esperar o troco, de dizer onde dobrar, onde atravessar, onde tem a pracinha, de me livrar disso tudo, só quero dormir, ainda mais que dobrei hoje. E agora, esse casal me aparece.
- Amigão, vocês passaram mas não pagaram.
- Aí Anacléia!
- Paguei sim, pode ver aí! Não quero nem saber, paguei sim!
- Não pagou não, como você pagou? Foi você ou ele quem pagou?
- Foi ele.
- Você pagou, amigo?
- Não paguei não. Anacléia, não paguei, não disse que não paguei? Tá ficando doida? Olha só, fica fazendo vergonha na frente de todo mundo aqui no ônibus! Liga ai pra Rúbia!
- Meu celular não ta pegando, tá dando fora de área direto.
- Qual é o celular dela? É o Tim ou o Claro?
- É o Tim.
- Trocador, pode deixar que no ponto final nós resolve, não vai ninguém aqui descer sem pagar não. Não tem criança aqui não.
Ainda tenho que escutar isso, o cara passa com a mulher pela roleta, pede pra abrir atrás pra outro garoto subir, não paga e bota essa banca. Eu é que não vou ficar discutindo com gente enrolada. Digo enrolada sendo bem bonzinho, porque a outra já ia forçando a barra dizendo que tinha pago. Eu hein, é ruim de ficar discutindo hein. Quem não quer saber sou eu. Quando chegar lá no ponto final o fiscal que resolva. Sempre paguei tudo direitinho. Claro, não sem dificuldade, mas ninguém tem nada a ver com isso, né?
Ainda bem que já tamos chegando na garagen, quando chegar em casa vou esquentar aquele picadinho de ontem, to cheio de fome mesmo. Ainda vou ver se a Néia não quer dar uma passadinha lá. Se não quiser também, tá bom, to cansadão.
E amanhã, bem cedinho, começa tudo de novo e a gente tem que tá preparado, né?
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