terça-feira, 5 de junho de 2012

Baby, did you forget to take your meds?

Enquanto passava pela calçada, viu o portão da garagem se abrir. Esperou pacientemente o carro sair e seguir seu rumo despreocupado, no momento em que o portão automático fez menção de se fechar, ele caminhou discretamente até lá e se esgueirou garagem adentro. Ninguém percebeu, principalmente o porteiro que se distraía com um programa na TV. Para colaborar, não haviam câmeras (a instalação seria na semana seguinte), algo que ele já tinha previsto só de passar os olhos rapidamente pela entrada do prédio.

Dentro da garagem abafada, sem demonstrar nervosismo ou qualquer coisa que o denunciasse, se dirigiu aos elevadores. A porta se abriu, um casal de idosos saiu, cumprimentou-os e entrou. Quando ia apertar o botão, o elevador foi chamado, em vez de escolher, deixou-se ser escolhido. Assim, foi parar no 5º andar, onde uma menina de uns 13 anos aguardava com um cachorro pequeno no colo. Elogiou o pelo do cachorro e recebeu de volta o sorriso tímido da menina. Ela se foi e ele seguiu, olhava os números dos apartamentos um a um. Chegando ao 501 apertou a campainha, porém não esperou nem a resposta e saiu, foi ao 503 e fez o mesmo, no 505 apertou forte duas vezes. Acelerou passo pra chegar ao 508, atrás dele aquela sinfonia de trincos se deslocando, molhos de chaves balançando, portas se abrindo. Desistiu do 508 e seguiu em diante pelas escadas, para ir mais rápido , subia a cada 2 degraus. Já no 6º andar, uma moradora que estava de saída, fechando a porta, olhou-o com um ar de estranheza, e antes que ela falasse algo, ele se adiantou:

- Bom dia. A senhora, por acaso, viu alguém passar por aqui?
- Não, não vi, até porque só saí agora - respondeu a mulher desconfiada.
- Tudo bem, estou a procura de um suspeito que pode ter entrado nesse prédio - falou ele ao mesmo tempo em que mostrava a carteira com um distintivo, num gesto tão rápido que não dava para identificar nada.
- Ai meu Deus, será que é assaltante, moço? - perguntou a mulher assustada.
- Acho melhor que, para sua segurança, a senhora saia depois. Entre em casa e tranque a porta - sugeriu ele, que olhava para todos os lados, como se esperasse que o suposto invasor surgisse.
- Ah então tá, vou entrar agora mesmo! Obrigada hein, tomara que você consiga prender logo esse marginal - disse a mulher, completando a frase já dentro do apartamento e em seguida fechando a porta com todas as voltas possíveis da chave.

Depois do breve diálogo, ele chegou ao elevador, que já estava no mesmo anda o esperando. Dessa vez foi direto a portaria, cumprimentou o porteiro e saiu.

Chegando ao trabalho, um escritório no centro da cidade, reclamou do calor com a secretária e perguntou qual era agenda do dia.


Segunda-feira, mais um dia normal começava.


Um comentário:

  1. Você poderia reunir histórias como esta num livro de contos chamado "Anônimos", ou "Célebres anônimos", ou ainda "Anoni/mato", sei lá...rss
    Enfim, excelente mergulho nas profundezas da rasa condição do homem contemporâneo. Abraços!

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