terça-feira, 29 de maio de 2012

O Cobrador

- Abre lá atrás pra ele subir com o carrinho, piloto!

Acordo às 04:00 todos os dias em que estou escalado pra trabalhar, ou seja, no máximo um dia de folga durante a semana. Moro longe da garagem, aliás, moro longe de muita coisa.
Tenho trabalhado muito, to juntando pra comprar um carrinho, vai facilitar demais as coisas. Principalmente pra visitar meu filho, que mora com minha ex-mulher, no lugar mais contramão que já vi. Não sei pra que aquela mulher foi se esconder tanto, deve ser pra dificultar minha vida. Só pode, aquela miserável. Maldita hora em que fui naquele forró no Arará. Me lembro de ter falado pro Edmilson: "Não vou não, to sem dinheiro.", mas ele disse que pagava, que tava com dinheiro por ter acabado um serviço num apartamento lá no Humaitá.
Ah se arrependimento matasse! Tava durinho agora debaixo da terra. Não posso nem falar isso, o moleque não tem culpa das minhas burradas, além do mais, é bom de bola, tá certo que tem que melhorar um pouco na escola. Não se dá bem com Língua Portuguesa, igual ao pai, nunca gostei desse negócio de análise não-sei-o-que-lá, verbo, sujeito. Oh troço chato que embola a cabeça da gente! Mas já falei pra ele, se não tirar notas boas, tchau pro futebol.

- Anacléia, você não pegou os R$ 5,50 com a Rúbia, Anacléia?
- Peguei, mas num to achando aqui. Ai meu Deus, cade o dinheiro, não tá no seu bolso Cleiton? No da calça?
- Não tá, já disse! Porra, Anacléia! Não é possível, você não presta atenção nas coisas não? Você não pegou o dinheiro? Meteu onde?
- Não sei, você não deu lá na hora que passou pela roleta não?

Essa viagem é a "boa". Quer dizer que é a última para largar do serviço, me livrar dessa cadeira, desse trajeto, mesmos buracos, mesmo sinais, dessas contas repetidas: 1 = R$2,75; 2 = R$ 5,50; 3 = R$ 8,25..., de pedir pra esperar o troco, de dizer onde dobrar, onde atravessar, onde tem a pracinha, de me livrar disso tudo, só quero dormir, ainda mais que dobrei hoje. E agora, esse casal me aparece.


- Amigão, vocês passaram mas não pagaram.
- Aí Anacléia!
- Paguei sim, pode ver aí! Não quero nem saber, paguei sim!
- Não pagou não, como você pagou? Foi você ou ele quem pagou?
- Foi ele.
- Você pagou, amigo?

- Não paguei não. Anacléia, não paguei, não disse que não paguei? Tá ficando doida? Olha só, fica fazendo vergonha na frente de todo mundo aqui no ônibus! Liga ai pra Rúbia!
- Meu celular não ta pegando, tá dando fora de área direto.
- Qual é o celular dela? É o Tim ou o Claro?
- É o Tim.
- Trocador, pode deixar que no ponto final nós resolve, não vai ninguém aqui descer sem pagar não. Não tem criança aqui não.

Ainda tenho que escutar isso, o cara passa com a mulher pela roleta, pede pra abrir atrás pra outro garoto subir, não paga e bota essa banca. Eu é que não vou ficar discutindo com gente enrolada. Digo enrolada sendo bem bonzinho, porque a outra já ia forçando a barra dizendo que tinha pago. Eu hein, é ruim de ficar discutindo hein. Quem não quer saber sou eu. Quando chegar lá no ponto final o fiscal que resolva. Sempre paguei tudo direitinho. Claro, não sem dificuldade, mas ninguém tem nada a ver com isso, né?
Ainda bem que já tamos chegando na garagen, quando chegar em casa vou esquentar aquele picadinho de ontem, to cheio de fome mesmo. Ainda vou ver se a Néia não quer dar uma passadinha lá. Se não quiser também, tá bom, to cansadão.
E amanhã, bem cedinho, começa tudo de novo e a gente tem que tá preparado, né?

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